Aconteceu Comigo com Caroline Macêdo

Minha história com a Depressão Gestacional e Pós-Parto (DPP)

 

imageOlá, meu nome é Caroline, tenho 28 anos, sou advogada, mãe do Pedro Augusto, hoje com 1 ano e três meses, estou grávida de 7 meses do Miguel e gostaria de contar minha história para vocês, quem sabe não ajuda alguém, não é mesmo?

Durante toda a minha vida fui extremamente controladora e organizada. Apesar de ter um pai super protetor e que bancava todos os meus caprichos, fui trabalhar aos 17 anos pois queria criar certa independência. Comecei a namorar muito cedo (aos 16),  peguei a minha OAB aos 22 anos e me casei aos 23. Organizamos o casamento, montamos nosso apartamento e começamos a curtir a vida conhecendo lugares maravilhosos, rodando restaurantes badalados, permitindo alguns artigos de luxo e tendo uma vida social bem ativa. As vezes meu marido dizia que não via a hora de chegar a semana, pq ele se cansava muito aos finais de semana! Ou seja, minha vida estava indo muito bem, tudo corria conforme o planejado e eu era muito feliz!

Um belo dia me deu um estalo: eu queria ter um filho! Meu maior sonho sempre foi ser mãe! Mãe mesmo, daquelas com casa com cerca baixa, filhos correndo, cachorros no quintal, viagens de férias… Começamos então a programar nossas carreiras e vidas financeiras para isso: terminei a pós, comuniquei minha chefe, fizemos uma reserva de dinheiro e começamos a tentar. Eu, nos meus sonhos imaginava que bastaria parar de tomar a pílula que engravidaria: ledo engano. Os 2 meses  (sim, hoje sei que engravidei muuuuuito rápido) de tentativa pareciam séculos! Percebi que poderia controlar tudo, menos o momento de engravidar. Foi um momento de muita ansiedade mas enfim o “sim” chegou! Chegou fácil??? Nananinanão! Precisei de 4 testes de farmácia diferentes e 2 de sangue para acreditar no “positivo”! Não posso me considerar uma pessoa normal, né?

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E a minha felicidade? Não sei onde foi parar. E a mágica de engravidar? E o momento sublime? Não sei onde nada disso estava. Eu estava feliz, mas pensamentos absurdos de “será que é o momento?”/ “será que sou muito nova?”/ “será que vou dar conta?” / “e se ficar desempregada?”/ “e se nascer com problemas?” começaram a me assombrar mas os mantive em segredo. Só conseguia enxergar o lado obscuro, o lado negativo.

Por volta da nona semana (comecinho da gravidez) tive um descolamento de placenta e na minha cabeça era um castigo divino por eu ter aqueles pensamentos, estava certa que perderia meu filho o que Graças a Deus não aconteceu.

Com o passar do tempo o medo e os “serás” tornaram-se mais frequentes e surgiu então a culpa: Como eu poderia ter esses sentimentos se estava vivendo o melhor momento da minha vida? Como eu podia ser tão mal agradecida? Procurava controlar os sentimentos mas acabou que ficava super agitada, irritada e introspectiva.

Fiz todo o enxoval do meu bebê fora do país e tinha todos os aparatos mais modernos para amamentação: bomba elétrica, concha de amamentação, pomadas, cremes, sutiãs… Podia imaginar o prazer de alimentar meu filho, de ser essencial para ele.  Morria de medo dele nascer, das coisas não darem certo, mas procurei fazer o meu melhor, procurava não mostrar meu desespero. As outras grávidas que conheci através de redes sociais, mais ou menos com a mesma idade gestacional que eu, viviam perguntando sobre a ansiedade de ver a carinha e a vontade incontrolável de que o bebê nascesse logo…. Não sentia nada daquilo. Por mim a gravidez poderia demorar anos!

No final da gravidez tive um problema de placenta e meu filho teve que ser nascer de emergência com 37 semanas. O medo dele não estar 100% pronto e nascer com algum problema respiratório me assombrou, não consegui curtir nada do parto, estava uma pilha!!! Minha família toda estava presente, meus melhores amigos, aquela animação e eu sentia aquela angústia e melancolia que faziam eu me sentir muito culpada.

Ainda na sala de parto amamentei meu filho pela primeira vez e aquela sensação foi a única boa que tive relacionada à amamentação. Nas mamadas seguintes meu mamilo doía muito, meu seio estava muito cheio (meu leite desceu muito rápido!) e o bebê não conseguia fazer a pega correta pois meu bico não projetou! Durante o período em que estive na maternidade as enfermeiras me ajudaram muito mas chegando em casa a amamentação virou um pesadelo.

No quinto dia de vida do Pedro Augusto começaram as cólicas, ele não parava de chorar! A minha vontade era sumir com aquele bebezinho dali! Por que eu não o amava incontrolavelmente como todas as outras mães que eu conhecia? Olhava para mim e não me reconhecia. Tomava banho apenas para conseguir chorar em paz no banheiro, porque vontade eu não tinha. Eu, que sempre fui muito vaidosa não queria fazer as unhas, pentear o cabelo, tirar o pijama, levantar da cama, receber visitas… Cada vez que tinha que dar de mamar era um pesadelo. Choros que mais pareciam berros, peito doendo (as vezes até sangrava), muito sono e cansaço… O que eu tinha feito com a minha vida? Com o passar dos dias a minha única vontade era de sumir. Queria ser abduzida, ir morar em Marte, morrer. Talvez se tivesse tido coragem teria me matado. Não conseguia ficar feliz.

Minha ginecologista percebeu que não estava bem e me passou um antidepressivo que inclusive aumentava a produção de leite. Não melhorei. Só pensava em como minha vida era boa e o que eu tinha feito com ela. Um belo dia, quando meu bebê estava com 3 meses parei para pensar e foi a primeira vez que pude imaginar que estava com depressão pós parto e comecei a procurar a respeito. Li que cerca de 25% das mulheres que tiveram depressão pós parto começaram com uma não identificada depressão gestacional.  Percebi que existiam explicações físicas para eu estar sentindo tudo aquilo. Foi então que comecei a lutar contra aqueles sentimentos e a procurar ajuda, pois até então não permitia que as pessoas percebessem (como se fosse possível esconder) minha tristeza.

Passava por um momento delicado com o meu filho, que ainda tinha problemas com a amamentação. Fui a uma pediatra “natureba”, super pró amamentação e quando me abri com ela a primeira coisa que ela me aconselhou foi: Desmame. Fiquei chocada!!! Como assim não amamentar exclusivamente até os 6 meses como era o “certo”? Bateu a culpa. Chorei muito, conversei muito com meu marido, pensei, perdi o sono, chorei mais um pouco e enfim decidi parar de amamentar. Assumi que nunca tinha tido qualquer prazer com a amamentação, que só significava sofrimento para mim e para o meu filho, que recebia toda a adrenalina presente no meu sangue que ia para o leite e o deixava super agitado. Posteriormente descobri que ele realmente tinha um problema com a amamentação: ele é alérgico a proteína do leite de vaca (APLV) e o meu leite o fazia sentir desconfortos terríveis que não o deixavam dormir, mamar, e ter uma vida “normal”. Infelizmente não descobri a tempo para conseguir tirar a impressão ruim da amamentação, que eu tanto idealizei quando grávida, mas naquele momento eu precisava desmamar. A pediatra ainda receitou uma série de fórmulas homeopáticas para me ajudar a sair da depressão e para acalmar meu bebê. Conversei com meu marido e ele assumiu as mamadas da madrugada, eu precisava dormir! Fui melhorando lentamente, já conseguia sentir que o amor pelo meu filho sempre esteve lá, mas a depressão formou uma cortina que me impedia de percebê-lo e senti-lo!

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Após algum tempo percebi que não bastaria homeopatia ou a antroposofia. Procurei então minha antiga terapeuta e uma psiquiatra. Assumi que aquilo era mais forte do que eu e que não conseguia lutar contra ela sozinha. A psiquiatra receitou um antidepressivo novo, moderno e já na primeira semana me senti como antes: feliz! Comecei a curtir meu filho, valorizar meu marido (que estava completamente de lado) e minha vida! Com a ajuda da terapia conseguia ver a luz, o bonito, reconhecer minhas fraquezas…

 

 

 

Quando meu filho completou 10 meses descobri que estava grávida novamente! Por mais que estivesse melhor, ainda não estava “curada”! Não podia imaginar como seria começar tudo novamente! O trauma de um bebê chorando o dia todo ainda não tinha passado. Meu mundo caiu (novamente). Tive que parar a medicação mas aos 3 meses de gestação percebi que todos aqueles sentimentos estavam voltando. Voltei na psiquiatra e descobrimos que talvez os hormônios da gravidez me deprimissem e que isso é mais comum do que imaginamos, mas as mulheres, como fiz na primeira vez, não assumiam. Resolvi não passar por tudo aquilo e comecei com uma medicação nova, permitida na gravidez. Nunca parei a terapia e não acho que a pararei tão cedo. Hoje agradeço a Deus por ter engravidado pois estou conseguindo entender o que é uma gravidez de verdade! Espero que o Miguel consiga me mostrar o que é ser uma mãe de recém-nascido de verdade, acabar com meu trauma. Aceitar é o primeiro passo para mudar, e esse passo já foi tomado: não terei depressão gestacional ou pós parto novamente! Já não tenho medo que ele chegue, quero ver a carinha dele, sentir o cheirinho! Já consigo sentir amor pelo meu filho, uma coisa inexplicável! Um sentimento que todas as mulheres deveriam sentir, mas que são privadas em razão dessa traiçoeira doença!

 

 

Comentários

4 Comentários
  1. postado por
    Nilvane
    jun 27, 2014

    Também tive depressão pós parto e sentia o mesmo que você Carol, no entanto levei dois anos para descobrir o que era. Foi necessário encarar uma situação pior, a separação do meu marido, para iniciar um tratamento psiquiátrico e ver que a raiz estava na depressão pós parto não tratada.

  2. postado por
    Isaura Sousa P.
    jun 27, 2014

    Que lindo Carol! Me emocionei!

  3. postado por
    Monique Teixeira
    jun 26, 2014

    Parabéns Carol, pelo lindo texto e principalmente, pela coragem de expor um momento que muitas passam, mas poucas falam abertamente do assunto. Certamente ajudará muitas mamães. Eu, com pouquíssimas semanas de gravidez, já ficarei atenta aos sintomas. Desejo que o Miguel chegue cheio de saúde e que te traga ainda mais felicidade do que o Pedro Augusto, e que essa família linda que construiu seja cada dia mais feliz. Super beijo

  4. postado por
    Ana Carolina Salum
    jun 26, 2014

    Carol é uma guerreira, uma ótima mãe, advogada e amiga.
    Como sempre ela superou mais um obstáculo com muita sanidade e muita elegância. Estou grávida de 11 semanas e ela é minha refêrencia para tudo.
    Beijos, Salum.

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